O que a Chuva Representa?
A chuva representa, em sua síntese mais profunda, a Abundância. Cruzando o ciclo biogeoquímico, mitologias da antiguidade e a teologia bíblica das Escrituras, a chuva manifesta a soberania do Criador que, por copiosidade de gotas, contempla todas as probabilidades e torna concreto o que parecia impossível, sendo instrumento de bênção, fertilidade, renovação e juízo.
Desejada por necessitados e apreciada por contempladores.
Ao cair da chuva várias memórias, sensações e efeitos desabam em conjunto. Trazendo consigo um significado diverso: Desde do alívio do calor e seca, trazendo vida e esperança, indo até mesmo ao medo da tempestade que causa destruição.
Então, seria possível encontrar uma maneira para sintetizar todos esses aspectos? E isso seria capaz de nos ensinar alguma coisa?
Bom, a resposta será encontrada quando definirmos essa síntese, para isso precisamos destrinchar, compreender, reunir e então fundi-los num todo coerente.
Nesse caso,
- Quais os significados da chuva?
- O que a chuva representa?
É o que ouviremos agora.
Quais os significados da chuva?
Certamente, elas são fundamentais para o nosso planeta, pois contribuem para o desenvolvimento das diversas formas de vida devido a manutenção do ciclo da água.
No dicionário, chuva é a:
Precipitação da água atmosférica sob a forma de gotas.
No sentido figurativo é:
O que cai em grande quantidade: Ex: chuva de papel.
Quantidade excessiva de alguma coisa que ocorre num dado tempo; Ex: chuva de meteoros, chuva de gafanhotos, entre outros.
Simbolicamente, é um símbolo universal de fecundidade e fertilidade.
Tais termos ganham força devido as crenças, sejam antigas ou as sobreviventes.
O próprio panteísmo já configura a chuva como resultado da iniciativa do céu e das divindades que o habitam. Pois o termo remete ao grego (pan- tudo e theos- Deus), ou seja, tudo é Deus.
Mas a chuva tem maior notoriedade no Hinduísmo, uma das religiões mais antigas do mundo, surgindo cerca de 3.000 a.C. Com o deus Indra, que significa “gotas de chuva”; “beleza”.
Conhecido por ser o senhor das tempestades, a divindade dos céus, raios, nuvens, trovões, chuvas, rios e guerras. Indra chegou a ser o deus de todos os deuses em um passado distante, conhecido como período védico. Defendia toda a humanidade e os deuses das forças do mal.
E considera que a manifestação divina do raio é a que dá origem à chuva e torna férteis os campos, as mulheres e os animais. Por isso, as mulheres grávidas são comparadas à chuva como sendo as nascentes de toda a riqueza e abundância.
Semelhantemente a mitologia Grega, cujo deus da chuva era Zeus, que também governou os deuses. O qual podia usar seu poder para destruição, lançando raios e tempestades, ou enviar chuvas para as plantações.
Porém, Poseidon também era o deus das tempestades, assim como dos terremotos e do mar.
Da mesma forma, a mitologia egípcia considerava Seth como o deus da tempestade, do vento e da seca, tendo o poder de controlar o clima.
Mas vale citar a Tefnut, deusa da umidade atmosférica.
Vindo para o nosso continente, os indígenas da América Central acreditavam que a chuva era como o sémen dos deuses, a semente do deus da trovoada. Uma justificativa do porque que a terra ficava fértil após as chuvas.
Já os Maias atribuíam a chuva a uma deusa, a Ixchel que era responsável pelas chuvas e também pelas inundações.
No sentido agrário, os Astecas cultuavam o Tlaloc, deus da chuva e da plantação, para o qual faziam sacrifícios humanos.
Assim como os Incas faziam, com o chamado Apu Illapu, que era uma divindade agrícola. Caso a seca fosse muito persistente, ofereciam-lhe também sacrifícios humanos. Os incas acreditavam que ele encontrava-se na Via Láctea, considerada um grande rio no céu, de onde pegava a água que cairia na Terra em forma de chuva e o movimento de suas roupas brilhantes eram os relâmpagos.
Mas, a realidade nos mostra o ciclo hidrológico. Um importante mecanismo biogeoquímico que faz a circulação desse mineral, favorecendo a vida no planeta e determinando algumas condições climáticas. As principais etapas desse ciclo são: evaporação, condensação, precipitação, infiltração e transpiração.
E nesse tempo, pode ocorrer a chuva ácida. Que consiste na precipitação com elevada concentração de ácidos como o dióxido de enxofre. Essa acidez é medida por meio da escala numérica conhecida como pH. Tal chuva acontece devido a poluição existente no ar, que quando a água cai, ela capta esses poluentes e os traz de volta para a terra. Por esse motivo, não é recomendado se expor as primeiras chuvas.
Lembrando também que há três tipos de chuva:
As Orográficas, denominadas também de “chuva de relevo”. Esse tipo de precipitação ocorre quando há uma barreira (seja montanha, serras ou escarpas) que barra a massa de ar úmida. Isso causa a elevação de altitude das chuvas que logo depois precipitam. Esse tipo de chuva é muito comum no litoral brasileiro.
As Convectivas, são chamadas popularmente de “chuvas de verão”. Decorrem das altas temperaturas, em razão da diferença de temperatura nas camadas próximas à atmosfera terrestre, geralmente precipitando durante as tardes. São chuvas rápidas que podem ser seguidas de temporais.
As chuvas Frontais têm esse nome porque as massas de ar quente e ar frio se chocam frontalmente. Assim, o ar quente sobe, por ter menor densidade, e o ar frio permanece abaixo, por ser mais pesado. Isso ocasiona a precipitação da água após a elevação do ar frio, que quando atinge maiores altitudes, ele resfria e condensa.
As chuvas frontais também são chamadas de “chuvas ciclônicas”. Possuem a característica de serem de intensidade moderada e de maior duração, diferente das convectivas.
Não podemos esquecer da neve, que acontece em condições de intenso frio e umidade. Se formando quando o vapor d’água da nuvem se transforma em cristais de gelo, que se agrupam e formam os flocos de neve.
No entanto, a chuva de Granizo provavelmente é a que chama mais atenção. Sua formação é concretizada em nuvens de elevada altitude mediante a ação de elementos e fatores climáticos diversos, como as baixas temperaturas, a qual congela a água. Porém, elas geram inúmeros prejuízos econômicos, com destaque para perdas na agricultura.
Vale a pena também citar o orvalho, em Salmos 133 diz:
“Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.”
“É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes.”
“Como o orvalho de Hermom, e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre.”
Salmos 133:1-3
Conhecido também por Rocio e Sereno, o orvalho se produz pela condensação do vapor que está na atmosfera em gotas bastante pequenas (gotículas). É um fenômeno importante em locais onde há escassez de chuva, ajudando a gerar umidade para o solo. Assim, há casos em que a umidade surge e transforma-se em orvalho, por conta das mudanças bruscas no clima (geralmente acontecendo no período da noite). De forma prática, são as gotículas que ficam depositadas sobre as plantas ou na rua.
Na passagem que lemos, o salmista destaca o Monte Hermom, que, de tão alto, há neve em seu topo, de onde vem o orvalho, que ao derreter abastece os rios, inclusive o rio Jordão. Os quais irrigam os campos em volta. E ele compara essa dádiva com a união entre os irmãos.
A bíblia possui várias citações sobre o orvalho no sentido de benção, de leveza e de tranquilidade
Mas, sobre o assunto em questão, podemos citar a canção de Moisés, o hino está em Deuteronômio 32, que inicia da seguinte forma:
“Escutem, ó céus, e eu falarei; ouça, ó terra, as palavras da minha boca.”
“Que o meu ensino caia como chuva e as minhas palavras desçam como orvalho, como chuva branda sobre o pasto novo, como garoa sobre tenras plantas.”
Deuteronômio 32:1-2
A palavra do Senhor é comparada com a chuva, que cai do céu para renovar a terra, de forma leve e macia como o orvalho.
Entretanto, não há como não falar do dilúvio, a primeira chuva registrada na bíblia é tão intensa que inundou a terra. O motivo? A humanidade estava corrompida. Ou seja, a grande chuva foi punição, uma sentença divina.
E de fato, chuvas tempestuosas castigam a terra e a humanidade.
Contraditório, não acha? Bom, antes de discorrer sobre esse aparente paradoxo, vejamos o que mais a Bíblia diz, Jeremias 5:23-25:
“Mas este povo é de coração rebelde e pertinaz: rebelaram-se e foram-se.”
“E não dizem no seu coração: Temamos agora ao Senhor nosso Deus, que dá chuva, a temporã e a tardia, ao seu tempo; e nos conserva as semanas determinadas da sega.”
“As vossas iniquidades desviam estas coisas, e os vossos pecados apartam de vós o bem.”
Jeremias 5:23-25
Aqui, Jeremias alerta o povo de que as suas iniquidades podem até mesmo afastar as chuvas, a temporã e a serôdia. Para contextualizar, esses termos designam os períodos chuvosos na Palestina.
A temporã ocorre no outono, são as chuvas precoces, as primeiras. Elas preparam o terreno para ser lavrado e semeado, irrigando os campos recém-semeados.
Já a Serôdia ocorre na primavera, são as últimas chuvas. E ela é fundamental para fazer com que o grão cresça e produza uma boa colheita.
Em contrapartida, o profeta Joel proclama a compaixão do Senhor através da chuva:
“Filhos de Sião, alegrem-se e exultem no Senhor, seu Deus, porque ele lhes dará as chuvas em justa medida; fará descer, como no passado, as primeiras e as últimas chuvas.”
Joel 2:23
Indo para o novo testamento, o apóstolo Tiago compara a espera pela chuva com a espera pelo Senhor, Tiago 5:7-8:
“Portanto, irmãos, sejam pacientes até a vinda do Senhor. Vejam como o agricultor aguarda que a terra produza a preciosa colheita e como espera com paciência até virem as chuvas do outono e da primavera.”
“Sejam também pacientes e fortaleçam o seu coração, pois a vinda do Senhor está próxima.”
Tiago 5:7-8
Portanto, de várias formas e de diversas maneiras, a chuva nos é apresentada como uma boa polissemia. Então, voltando para a possível contradição, a chuva é usada para abençoar, seja fertilizando a terra ou limpando dos males, mas também pode ser usada para castigar, seja pelo seu excesso, forma ou escassez.
Recentemente, Calçoene, no Amapá, recebeu o título de cidade mais chuvosa do Brasil. De acordo com a Embrapa, entre janeiro e junho, são registrados mais de 25 dias de chuva por mês.
Já o título de lugar mais chuvoso do mundo vai para Mawsynram, na Índia. Onde seus moradores usam os icônicos “Knups”, os escudos de guarda chuva. No vilarejo chove quase todo dia, dificultando a agricultura, comércio e infraestrutura. Para se ter noção, os materiais de construção tradicional apodrecem rapidamente, obrigando os aldeões a encontrarem uma solução engenhosa. Eles amarram as raízes das árvores e moldam o seu crescimento conforme necessitam. Construindo assim pontes vivas, duradouras e que jamais apodrecerá pela umidade. Os moradores fazem até tratamento acústico nas casas para diminuir os ruídos ocasionados pela chuvarada.
Tais relatos nos mostram que a chuva em demasia acaba sendo um estorvo, afinal a simples ausência constante de sol gera um desequilíbrio.
O oposto também é indesejado, os lugares com menos chuva se tornam quentes e secos. O Egito está entre os locais menos chuvosos, o que forçou os habitantes a se instalarem perto do rio Nilo. Aqui no Brasil e no mundo, as temporadas de seca são marcadas por incêndios florestais e fragilização da saúde populacional, ocasionando inclusive em problemas respiratórios.
Essa dualidade ocasionada pelos extremos e a relação humana com a chuva é bem retratada em filmes como “Mad Max”, “Rango”, “Duna” e “Tenki no Ko”, uma animação japonesa, traduzida como “O tempo com Você”.
Adentrando na filosofia, nos deparamos com o primeiro filósofo, Tales de Mileto, que acreditava que o elemento primordial era a Água. Observando que esse composto estava presente em todas as formas de vida e no ar, Tales afirmou que até os minerais teriam alguma quantidade de água, que, de tão pequena, era imperceptível.
Enquanto isso, a literatura de Millôr Fernandes nos apresenta um ponto fascinante:
Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.
— Millôr FernandesConfuso? Mas é verdade, entre um pingo e outro a chuva não molha.
De todo modo, há muitas metáforas e versículos bíblicos sobre a chuva, mas a base de tudo já foi explanada, então
O que a chuva representa?
Após tudo o que ouvimos, fica simples sintetizar tudo. Mas gostaria de acrescentar as palavras do salmista, do capítulo 65:9-10:
“Tu visitas a terra, e a refrescas; tu a enriqueces grandemente com o rio de Deus, que está cheio de água; tu lhe preparas o trigo, quando assim a tens preparada.”
“Enches de água os seus sulcos; tu lhe aplanas as leivas; tu a amoleces com a muita chuva; abençoas as suas novidades.”
Salmos 65:9-10
De forma direta, podemos dizer que Deus é a própria chuva, assim como é a tempestade e o orvalho também. O motivo para isso é justamente pelo seu controle absoluto e poder soberano sobre tudo o que acontece.
Na introdução, disse que a chuva desperta emoções e sensações nas pessoas. Como aconchego, leveza, paz, tranquilidade, bom humor, prosperidade, renovação, melancolia, felicidade, frio, romance e até mesmo limpeza.
Como sendo a limpeza da alma. E, se observarmos nesse sentido, as sujeiras das ruas são varridas pela chuva, a poeira das folhas retiradas, os rios parados e secos começam a encher e se mover retirando todo detrito pelo caminho. Puxando para o âmbito da alma, a chuva para muitos lembra do choro, que nada mais é do que as lágrimas jogando para fora toda dor e tristeza.
Todas essas emoções e sensações despertam memórias, cada pessoa tem uma lembrança sobre a chuva, como: um abraço de alguém querido, café, chocolate quente, chá, um bolo, tipo um de cenoura com cobertura de chocolate, filmes dos anos 2000 ou não, tempo para ficar em casa ou tomar banho na chuva, seja para brincar ou para dançar, uma situação triste ou engraçada, até mesmo músicas e séries que marcaram, uma boa companhia ou mesmo um término ou início de um relacionamento.
Pessoalmente, a época de chuva para mim é a mais romântica do ano, mas sei que há aqueles que não concordam.
Em meio a essa ambiguidade, podemos citar a célebre frase de Paulo Coelho:
“Quem deseja ver o arco-íris, precisa aprender a gostar da chuva. (O Aleph)”
Paulo Coelho
Todavia, voltando para o objetivo de sintetização, quero propor uma ilustração:
Imagine-se nas nuvens, no mais alto céu olhando para a terra, em sua mão tem uma seringa com água, que conforme você aperta saem gotas de água como as da chuva. Sua missão é acertar um fio que está perto do chão, uma corda usada para estender roupa, por exemplo.
Qual a probabilidade de você das nuvens acertar esse fino fio pendurado perto do chão?
Provavelmente, respondestes dizendo que é tão baixa que beira ao impossível.
Porém, durante a chuva dezenas, centenas, milhares de gotas atingem o fino fio a ponto de encharcá-lo. Qualquer espaço de terra, as fiações de energia e o varão de estender roupa ficam molhados, não há nada descoberto que fique seco.
Isso é possível devido à enorme quantidade de gotas. São tantas, que todas as probabilidades possíveis e imagináveis são acertadas.
O que me faz pensar: A chuva representa Abundância.
Um significado tão abstrato quanto concreto.
Se algo era praticamente impossível, a chuva é aquela que, por abundância, contempla todas as improbabilidades. No fim, é a executora de um “milagre”
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Episódio 3 da série Ouviremos, concebido no formato Webdoc para articular ciência, fé e reflexão prática.
Links das Matérias e Artigos Citados
- • BBC News / G1: O lugar mais chuvoso da Terra (Mawsynram, Índia)
- • Gilberto Godoy: As 6 cidades mais chuvosas do planeta
- • Estilo Adoração: O Que Significa a Chuva Serôdia e a Chuva Temporã na Bíblia?
- • Brasil Escola: Maias – Religião
- • Free História: CHUVA – Fenômeno natural ou milagre do céu?
- • Infopédia: chuva (simbologia)
- • Superinteressante: Como era um ritual asteca de sacrifício humano?
- • Embrapa: Embrapa identifica cidade mais chuvosa do Brasil (Calçoene, Amapá)
Ficha Técnica do Episódio:
• Escrito e narrado por: Thalles Diamantino
• Observações: Diogo Martins
• Revisão editorial: Wesley Santos e Emilly Avila
• Produção executiva: Diamantino Estratégias